A Tractian, empresa brasileira de sensores e inteligência artificial para máquinas industriais, fechou uma rodada Série D de US$ 130 milhões e passou a ser avaliada em US$ 1,4 bilhão. É o maior unicórnio de inteligência artificial já formado no país — e o segundo da América Latina, atrás apenas da legaltech Enter, que alcançou US$ 1,2 bilhão no início do ano.
O valuation quase dobrou em menos de dois anos: na Série C, anunciada em novembro de 2024, a empresa foi avaliada em US$ 720 milhões, quando captou US$ 120 milhões.
Os números da rodada
O aporte foi liderado pela Sapphire Ventures, gestora que também havia puxado a Série C, com coliderança da M&G Catalyst. Participaram ainda N47, General Catalyst, Bosch Ventures, 53 Stations, Monashees, Endeavor Catalyst, Norte Ventures e Y Combinator.
Para o CTO JP Voltani, a repetição da liderança pesa: a Sapphire já estava no capital e decidiu dobrar a aposta. Nos bastidores, o que sustentou o entusiasmo dos investidores foi a curva de receita: a receita anualizada saltou de US$ 40 milhões em 2024 para mais de US$ 100 milhões em setembro deste ano.
O que a Tractian faz
Em uma frase: ela evita que máquinas parem sem aviso. A empresa instala sensores próprios em equipamentos industriais e usa modelos de inteligência artificial para monitorar vibração, temperatura e comportamento em tempo real, antecipando falhas antes que virem parada de produção.
A base de clientes é do porte que faz qualquer industrial prestar atenção: Eli Lilly, McKesson, Whirlpool, Coca-Cola, Cummins e Embraer, além de operadores de data centers e infraestrutura governamental. São mais de 2.000 instalações críticas monitoradas ao redor do mundo.
Da dor de um técnico de manutenção a um império de dados
A origem da empresa é quase uma cena de família. Igor Marinelli, CEO e cofundador ao lado de Gabriel Lameirinhas e Leonardo Vieira, cresceu vendo o pai, técnico de manutenção da International Paper, acordar de sobressalto para resolver emergências em equipamentos que falhavam sem previsão. A Tractian nasceu da ideia de transformar esse tipo de apagar incêndio em prevenção.
Onde o dinheiro vai parar
A maior parte do aporte vai para tecnologia: novos sensores, desenvolvimento de produto e treinamento de modelos de IA — a empresa mantém um parque de GPUs da Nvidia para isso. Segundo a administração, o ativo mais difícil de replicar não é o hardware: é a base de dados acumulada de anos de leituras de sensores e falhas catalogadas, matéria-prima escassa para treinar modelos que realmente funcionem no chão de fábrica.
Por que essa rodada importa
Num momento em que boa parte do dinheiro de IA flui para aplicativos e agentes conversacionais, a Tractian representa outra face do mercado: inteligência artificial aplicada a ativo físico, com receita crescente e cliente industrial pagando por resultado mensurável. É um voto de confiança na tese de que a próxima fronteira da IA brasileira passa pela indústria — e a fábrica, mais do que o chatbot, pode ser onde o país ganha escala.
