crackersphishingSegurança

A história do fraudador que ludibriou o FBI

A história do fraudador que ludibriou o FBI

A revista norte-americana Wired publicou recentemente um longo artigo sobre um hacker que conseguiu uma façanha: enganou a maior agência policial do mundo, o FBI. Mais de uma vez, inclusive durante o período em que trabalhou para o serviço de investigação dos Estados Unidos. A história, narrada pelo jornalista Kevin Poulsen, ainda traz informações interessantíssimas sobre uma das regiões do planeta que mais ameaçam o setor mundial de segurança da informação: o Leste Europeu.

O caso, que poderia facilmente servir de enredo para um bom filme, ocorreu no início dos anos 2000, quando hackear deixava de ser um “uma diversão” para se tornar uma atividade “profissional e voltada ao lucro”, de acordo com a Wired. O protagonista do relato é o ucraniano Maksym Igor Popov, então com 20 anos, que, apesar da pouca idade, já colecionava uma vasta experiência em crimes cibernéticos.

Popov iniciou a carreira criminosa ainda adolescente, obtendo dados de cartões de crédito de cidadãos dos Estados Unidos e utilizando-os para fazer compras fraudulentas por telefone em lojas de informática e telefonia celular, solicitando a entrega dos produtos na Ucrânia. Posteriormente, o jovem hacker resolveu dar um passo ainda maior: ele invadia o sistema de grandes companhias para roubar dados e, em seguida, entrava em contato com elas fazendo-se passar por um “consultor de segurança” que oferecia seus serviços para solucionar o problema e garantir que aqueles dados não vazassem – sempre em troca de uma gorda quantia financeira. Na prática, era uma forma de extorsão.

Em janeiro de 2001, Popov, desiludido com algumas investidas fracassadas, tentou mudar de vida: apresentou-se ao FBI e se ofereceu para trabalhar no serviço de investigação dos Estados Unidos combatendo crimes cibernéticos, em troca de um alto salário e uma perspectiva de futuro. Apesar de a instituição norte-americana ter aceito a proposta, o plano não saiu conforme o esperado. Assim que desembarcou em solo americano, o hacker foi detido e levado a uma sala de isolamento, onde recebeu uma nova proposta muito menos vantajosa: tornar-se um informante que trabalharia de segunda a segunda para entregar seus comparsas ou ir para a prisão.

O primeiro truque

Popov, sem opção, aceitou a oferta e passou a trabalhar sob escolta de policiais em uma residência do FBI. Ele era instruído a entrar em chats da Rússia para manter contato com outros hackers de sua quadrilha, em uma armadilha do serviço norte-americano. Só que o jovem ucraniano, sentindo-se “traído”, tinha uma carta na manga: ele fingia colaborar com as investigações, mas, ao mesmo tempo, utilizava gírias em russo para alertar seus colegas que o FBI estava monitorando aquelas conversas. Levou três meses para que o truque fosse descoberto, quando os logs das conversas foram traduzidos pelos oficiais…

O ucraniano, então, foi destituído de sua ocupação e preso pelos crimes cometidos ainda em seu país de origem. E ficou na cadeia durante um ano até ser descoberto por um agente do FBI, especialista em crimes cibernéticos, chamado Ernest Hilbert. O policial acreditava que Popov, por ter fluência em russo e “experiência” na área, poderia ser fundamental para futuras investigações de hackers de países do antigo bloco soviético contra instituições dos EUA.

A segunda chance

Hilbert recebeu autorização para conversar com Popov e convenceu o jovem ucraniano a participar das investigações, mostrando respeito pelas habilidades do hacker e oferecendo-lhe de redução de pena. Trato aceito, e Popov ajudou o FBI a descobrir uma série de hackers do Leste Europeu – inclusive uma quadrilha russa responsável pelo um vazamento de 8 milhões de cartões de crédito de uma processadora norte-americana, em fevereiro de 2003. Oito meses depois do início dos trabalhos com o agente, ele conseguiu ter a pena revertida para três anos de liberdade condicional.

Durante três anos, Maskym Popov trabalhou para o FBI em troca de uma “ajuda de custo” de US$ 1 mil mensais, mais o aluguel de um apartamento no subúrbio de uma cidade na Califórnia. Mas a “nova vida” do hacker ucraniano não durou muito. Ainda em agosto de 2003, ele pediu autorização para visitar seu país de origem e nunca mais retornou aos Estados Unidos. Até então, ele e o agente Hilbert haviam conseguido retirar do mercado negro mais de 400 mil cartões de crédito clonados e alertado mais de 700 empresas que elas haviam sido hackeadas por criminosos do Leste Europeu.

O segundo truque

Popov manteve contato com o agente Hilbert mesmo após retornar à Ucrânia e abrir a sua própria empresa de segurança cibernética, a Cycmos (Cybercrimes Monitoring Systems), que vendia inteligência para empresas vítimas de hackers. O negócio aparentemente ia tão bem que Popov escolheu o amigo para noticiar, em primeira mão, uma descoberta incrível: o próprio FBI havia sido vítima de criminosos virtuais.

Hilbert, com o grande caso da carreira em mãos, convenceu o governo norte-americano a contratar a Cycmos por US$ 10 mil para colaborar nas investigações. O agente conseguiu ter acesso a documentos confidenciais e, com a ajuda de Popov, chegou inclusive ao responsável pelos ataques: um russo de 21 anos, estudante de engenharia, chamado Leonid Sokolov.

Só que o maior sucesso do agente do FBI representou o fim de sua carreira policial. Anos depois, uma investigação contra Hilbert foi aberta, sob as acusações de fraude contra o governo e vazamento de informações confidenciais. Por quê? Popov, na verdade, não havia descoberto o ataque hacker ao FBI, mas sim sido o responsável por isso – e Sokolov era apenas um dos comparsas do crime. Outras empresas também estavam no alvo do ataque, e uma delas teria denunciado às autoridades que havia sido chantageada pela Cycmos. Devastado, Hilbert pediu demissão do FBI em fevereiro de 2007.

Hacker e ex-agente se falaram apenas uma vez depois deste incidente: em 2013, Popov telefonou para Hilbert para agradecer pelo tratamento que recebeu do policial durante o período de trabalhos nos Estados Unidos. Palavras de Popov para a Wired: “Ele foi o único amigo que eu tive. Eu ainda o amo, mesmo que ele tenha se distanciado de mim por conta dos meus negócios. Eu ainda sou um criminoso, eu nunca mudei. Mas quem se importa? Eu ainda o amo”.

Depois deste episódio, o crime virtual organizado no Leste Europeu continuou a escalar de maneira incrível. Os vazamentos de dados das lojas americanas Target eHome Depot, entre 2013 e 2014 e que comprometeram mais de 120 milhões de cartões, também estão ligados a um malware programado por hackers russos. O FBI não conseguiu conter a evolução do crime cibernético – maior preocupação do agente Hilbert quando iniciou as investigações ao lado de Popov.

Para mais detalhes, você pode ler o artigo completo no site da Wired (em inglês) clicando aqui.

Artigos relacionados

Google cria nova área de segurança

galdino.ws

Saiba como usar VPN para segurança na internet

galdino.ws

Vulnerabilidades de segurança descobertas nos processadores da Apple

galdino.ws

Deixe um comentário